Vagabundo de Luxo

Contos pelos cantos que andei. Histórias engraçadas e reais.

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Nome: Ju Medeiros
Local: Fernando de Noronha, Pernambuco, Brazil

Cantor, Compositor e mergulhador. Resido na Ilha de Fernando de Noronha. Atualmente vivo uma experiência de Vídeo Maker, fazendo e escrevendo curtas e viajando de moto Custom pelo Brasil

Sábado, Março 18, 2006

MEU SEGUNDO E QUASE ÚLTIMO MERGULHO EM NORONHA


Logo que cheguei à ilha, pra dizer a verdade, depois de um ano de ilha, resolvi aprender a mergulhar com cilindro, o mergulho de garrafa como a maioria conhece e pensa que é oxigênio que tem dentro. Na realidade é ar comprimido, claro que tem um percentual de oxigênio também. Mas o oxigênio puro não é benéfico se respirar depois dos três metros de profundidade.
Mas vamos a historia; resolvi aprender a mergulhar, e toda vez que o barco da Águas Claras, (na época a única empresa de mergulho na ilha), ia para o mar levando turistas para o mergulho com cilindro, eu ia com a galera e vez ou outra pintava uma oportunidade de descer, (mergulhar) com algum amigo. Primeiro eram os turistas e se sobrasse uma garrafa cheia ou pela metade eu aproveitava e dava um mergulho. No primeiro dia fui muito legal, eu já macaco velho no mar em ter tido “experiênciado” toda minha infância e adolescência na beira mar de Olinda - PE Mas mergulhar com cilindro é outra coisa, é a possibilidade de você retornar a respirar num meio liquido, e sabe o que isso significa? Retornar as sensações uterinas. Escreverei sobre isso em outro tópico. Mas vamos lá. O segundo mergulho, “ah o segundo mergulho!”. Durante a operação com os turistas, um deles resolveu abortar o mergulho pela metade, e o Rony falou pra mim, - se equipa que vamos descer mais uma vez. Equipei-me, e esperei ele se equipar também. Minha garrafa estava pela metade. Então descemos, eu, Rony e Hayrton que também estava em curso de mergulho. O descer foi fácil, e respirar também, eu não tinha lá essas dificuldades todas, o importante era viver essa experiência para poder trabalhar com mergulho ganhar uma graninha, pois não havia outra opção para eu ganhar grana, ou cantando ou mergulhando. Em determinado momento o Rony passa por um buraco e o Hayrton segue e eu vou também seguindo. Só que como meu cilindro estava pela metade eu estava com tendência de flutuação positiva, ou seja; subindo. E ao passar pelo buraco a torneira enganchou na borda e eu fiquei sem poder ir em frente. Isso fez com que eu respirasse mais rapidamente tornando assim meus pulmões mais cheios e consequentemente mais leve meu corpo ficava e a cada vez, mas difícil de sair dessa. Pensei em tirar o colete e subir, mas graças a Deus não foi possível. Se assim o fizesse eu tinha em mente prender o ar nos pulmões e de uma vez só subir até o nível do mar, mas seria meu fim, pois o ar comprimido preso ao subir iria se expandindo e poderia estourar meus pulmões ou mesmo provocar uma embolia gasosa, e o final seria trágico. Pra frente não dava, pra trás também, gritar não era o caso, bater no cilindro com alguma coisa para fazer som e assim chamar meus amigos não adiantaria, pois não tinha ângulo. E agora? Perguntei a mi mesmo. E a resposta foi que tinha chegado a minha hora. Lembro-me que olhava o manômetro e via cada vez mais o ponteiro ir à direção da zona vermelha, é uma marcação que quer dizer que ta na hora de subir. De repente um Saberé ou Sargentinho, como queira chamar, trata se de um peixinho com listras amarelas e pretas que existem em todo nosso litoral, e muito em Noronha. Um aparece bem em frente aos meus olhos e me diz. – Cadê toda a sua tecnologia? O que você pensa agora? E eu me senti impotente diante aquele peixinho e aquele marzão. Nesse momento a gente não tem a noção de tempo – espaço. Tudo é ao mesmo tempo agora. Eu me vi criança, vi meus pais, irmãos, repensei toda a vida. Não vi nenhum túnel, luz, nem figuras do céu, essas coisas que vêem no leito de morte, eu apenas refletia muito e cheguei a acreditar que esse seria meu fim, mas é impressionante o quanto a gente não sabe um milésimo de segundo sobre o futuro. Nem mesmo ali naquela situação eu poderia afirmar que seria minha passagem, pois isso só a Deus é permitido. Eu imaginava como morrer, não queria ficar esperneando com a presença de água dentro dos pulmões, preferia inspirar e prender o ar até desmaiar. Mas isso foge ao nosso querer, pois o ato dos pulmões inspirarem e expirar se da ao fato do ar ali contido estar queimado ou não. Quando a energia do ar que inspiramos é absorvida pelo corpo os pulmões o expelem para troca de um novo ar. Mas fui me deixando ir, aceitei o fato de encerrar minha jornada ali e me sentia feliz de ser assim. Bom, o fato é que não foi dessa vez. A respiração foi ficando cadê vez mais pesada, o cilindro já estava quase vazio, e eu numa tranqüilidade absoluta, esperando a hora. Já nem me lembrava que tinha mergulhado com amigos, aliás, nem me lembrava que tinha mergulhado. E de repente, não mais que de repente eu sinto uma força me empurrando para baixo e fazendo-me sair do engasgo. Era o Rony, olhei para ele bem calmo e fiz o sinal que estava sem ar, “que é passando a mão por sobre o pescoço como quem se degola”, e ele com um outro sinal mandando me subir, “que é a mão sinalizando legal, com o polegar para cima”. Eu repetia o mesmo sinal e ele repetia o mesmo também ate chegarmos ao nível do mar. E ao tirar minha mascara de mergulho e o regulador da boca eu coloquei todo o ar que havia sobre o mar pra dentro de mim, e gritei para o Rony, Filho da Puta, eu num disse que precisava de ar pôrra!!!! E ele falou bem tranquilamente, - é que o Randal* falou que mesmo acabando o ar nos pulmões, ao subir existe uma reserva que vai expandindo, e eu queria testar isso com você. É claro que não fiquei zangado com ele, e graças ao Rony hoje eu mergulho em Noronha sem um mínimo medo de faltar ar, desde que seja mergulho de até no máximo 17 metros.

*Randal Fonseca, Um dos melhores mergulhadores do mundo, e proprietário da primeira empresa de mergulhos em Noronha.

O ROUBO DO DEFUNTO


Certa época eu tive um programa de rádio em Noronha. O programa ia ao ar as 9:00 h. e encerrava as 13:00 h.de segunda a sexta e o titulo era “ Ju Medeiros Show”. Era um programa uníssono, só havia, e ainda é assim, uma radio na ilha. Todos ouviam, podia se dizer que era líder e audiência. Eu abordava vários assuntos e como dispunha de muito tempo, cada dia eu reservava uma hora, que era entre meio dia e uma da tarde, para um determinado quadro que eu inventava. A saber; Seg.”Pergunte ao doutor” onde eu fazia as mais ignorantes perguntas num português bem popular para que todos pudessem entender. Ter. “Porque ele pode e eu não” para as pessoas que se sentiam prejudicadas politicamente, a uns eram permitidos fazer algo, a outros a mesma coisa era proibida, isso dentro da mais ditadura possível. Na Quarta tinha o famoso “Som das Almas” onde só tocava musicas de artistas que já tinha morrido, pois eu notava que as rádios em relação aos artistas que morriam só tocavam suas musicas no dia ou no máximo durante uma semana pos morte, onde depois acabavam de matar toda sua arte. E por aí ia. Alguns quadros permaneciam e outros eu criava no próprio dia. Nessa época minha casa era na Praia do Meio, e de lá até a Rádio era uma boa subida, eu saia de casa as 8:00 h e durante o trajeto me encontrava com as pessoas e elas me falavam dos problemas e dos anseios para que eu falasse no programa, tornando assim um gerador de pautas autentico, vinha do povo para a radio e não ao contrario.
Mas, e o roubo do defunto? Vamos lá então; eu estava n meu programa, em um dia normal, e o Naldo que era o diretor da rádio, cujo nome eu chamava de Dr.Naldo Marinho, me falou que tinham roubado o corpo do Sr. João, (nome fictício) do hospital. O programa era sempre pra cima, e eu perguntei a Naldo, pô! Como é que eu vou dar uma noticia dessas? Eu não sei dar noticias desalegres. E ele falou, tem que ser você porque no programa do Raminho, (que fazia das 15h00min as 18h00min) não teria tempo hábil para que as pessoas encontrassem o corpo, conseguisse um caixão, (que era normalmente de caixa de geladeira) e fizessem o enterro. Então sobrou pra mim mesmo, e eu num esforço tremendo falei, o bordão era “Ju Medeiros Show, só na transa” isso era dito de uma maneira explosiva, e eu tive que falar isso de uma maneira pra baixo. Mas consegui. E como foi o roubo? Agora entraremos no assunto.
Seu João tinha falecido a noite. A causa fora de cirrose, como a maioria dos óbitos em Noronha naquela época. Horas depois de sabido da morte, filho dele com mais dois amigos foram visitar e velar o defunto no hospital, pois não havia lugar para velório na ilha. O medico era novato, a cada quinze dias era trocado, e esse era a primeira vez que vinha trabalhar em Noronha e não conhecia nenhum, nem tão pouco como procediam às coisas da ilha, e logo de cara proibiu que os amigos do Sr. João ficassem ali. Quando já passavam das duas da madrugada, o médico foi para sua residência, os amigos e o filho do Sr. João ficaram escondidos esperando a hora de entrar no hospital, e quando chegou à hora entraram. Para surpresa de todos, eles pegaram o corpo colocaram em uma maca e saíram hospital a fora, tornando assim um fato onde a vida imita a arte, em referência a um dos clássicos, do sempre bem amado Jorge Amado, “Quincas Berro D’água”. E no caminho o corpo caiu ao chão, em frente a casa do Seu Davi, que ao ouvir o barulho das rodinhas da maca e das falas do “pré-cortejo”, se levantou e olhou pela brecha da janela na horinha que o corpo caiu e se assustou pensando que era um assassinato. Continuaram pela Rua Amaro Preto, passaram pela frente do cemitério e desceram para a rua que da no Palácio e logo depois a Igreja Nossa Senhora dos Remédios, lá eles rezaram uma missa, (a maneira deles) e foram os quatro para a casa de um deles. Era o filho, o defunto e mais dois amigos de cachaça. Eles tinham um pacto entre eles que; no dia que um morresse eles passariam a noite bebendo juntos, e foi o que fizeram. Quando o relógio batia três horas da tarde foi anunciado na radio que encontraram o corpo e fizeram o sepultamento.

Quinta-feira, Março 16, 2006

O ROUBO INFANTIL


Como sempre recebo meus amigos e amigas na ilha, dessa vez tinha recebido a Cris, uma amiga de São Paulo que veio passar uns quinze dias na ilha. Nessa época a gente conseguia até dispensar a taxa cobrada por dia, apesar de nessa época ser ainda de um valor pequeno. Fui apanhá-la no aeroporto e viemos para casa. Tinha um garoto que sempre vivia lá em casa e eu aproveitava pedia para ele levar meus hospedes amigos para mostrar a ilha, como ele era nascido e criado na ilha ficava de bom tamanho e ele ainda ganhava uma graninha. Vou omitir o nome dele aqui por questões obvias, e ele deve ter hoje seus vinte e poucos anos de idade.
Um dia a Cris me perguntou se eu confiava naquele garoto, vamos chamá-lo de Garoto. Eu falei que sim, o conheço há muito tempo, e que ele é uma pessoa honesta, e perguntei, por quê? O que foi que houve? Ela me falou que tinham desaparecido cinqüenta reais da carteira dela. Eu falei que seria impossível, e perguntei se ela tinha certeza. Ela falou que absoluta e só poderia ter sido ele. Eu fiquei sem jeito, o garoto era meu amigo, não amigo de idade, e farra, mas amigo de carinho, era como um filho, um sobrinho, e isso me deixou muito constrangido. Mas eu tinha que averiguar a situação. Ele tinha tirado cinqüenta reais, eu acreditara na minha amiga, não tinha porque ela inventar essa historia, isso estava completamente fora de hipótese.
Um dia pela manhã, na hora do garoto chegar e esperar minha amiga para fazer mais um passeio, eu aproveitei que ela estava tomando banho e chamei garoto. E jogando uma verde perguntei como que acusando; - Mas garoto!!!! E ele perguntou o que foi Ju? E eu continuei, - tu deu um ganho de 150,00 R$ da Cris? E ele na mesma hora sem pensar, falou; - Não Ju, foi só cinqüenta. E imediatamente sentiu que tinha se entregado, e caiu na real me olhando com uma cara de desculpas. Eu falei; - Mas garoto, porque você fez isso? Me pedisse grana se tivesse precisando, mas roubar? Eu entendo isso é normal na sua idade, mas nunca mais faça isso, entendeu? E ele falou que sim. E eu falei, pegue os cinqüenta e entregue a ela. Ou você já gastou? Ele respondeu que não tinha gastado ainda, e que tava no bolso, e que entregaria a ela. E assim o fez.

Quarta-feira, Março 15, 2006

TODA FORMA ACOMPANHA COM SI SUA HISTÓRIA


Em meados de 1992 a 1993 o governo de Pernambuco trouxe para Noronha vários artistas para realização de um projeto, Noronha 3 VISÕES. Fotógrafos, artistas plástico, poeta, no singular mesmo porque só foi um mesmo. E como eu sempre tava no meio dessas ondas, fiz amizade com quase todos. Eram artistas ligado a Veneza brasileira, e recebi vários presentes e dentre eles um que foi assinado por nada mais nada a menos que dois grandes gigantes das artes plástica de Pernambuco; Gil Vicente e Zé Carlos Viana. Eram duas madeiras em forma de cruz que eles acharam na praia, resto de barcos. Na linha vertical eles desenharam de cima para baixo; uma ave voando no céu, uma casinha, notas musicais saindo dessa casinha, e uma onda na praia, e um golfinho fazendo uma acrobacia. Na parte horizontal da esquerda para a direita ele escreveu “Marco Zero do Stress”, e colocava acima dessa frase na parte vertical meu nome Ju Medeiros. Eu recebi aquela obra de arte com muito carinho e coloquei na parede da minha casa na Praia do Meio.
Alguns meses depois eu recebo em casa um xamã amigo meu lá do norte do país. Entre umas conversas e outras ele olhou para a obra de arte e me perguntou quem me dera aquilo. Depois que eu falei toda a historia ele me falou que se eu quisesse que minha vida melhorasse deveria apagar o meu nome naquela obra. Apesar de esse amigo ser um mestre meu e eu sempre o escutei com os ouvidos e coração, eu fiquei sem entender o porquê, como sempre ficava quando ele falava sem me explicar antes. Mas eu perguntei, claro que perguntei. Ele falou que toda forma carrega com si sua historia. A historia da cruz é de sofrimento, dor, morte, e eu não deveríamos deixar meu nome escrito numa. Eu ri e falei que achava que não tinha nada haver. E ele falou com sua calma e sabedoria de sempre. Retire e espere o tempo, que é o mestre lhe mostrar. E você ainda terá um positivo disso. Eu perguntei o que seria ou como seria esse positivo? E ele falou que eu observasse minha vida e que algum ser daria um toque sobre isso.
E realmente fiquei observando e atento a minha vida e aos amigos que me cercavam. E eis que um dia um moleque amigo meu, o Dequinha, moleque no sentido de criança bacana que sempre ia lá em casa e ficava me perguntando coisas e eu ia lhe ensinando o que ia aprendendo. Dequinha era muito observador, tinha seus 6 a 7 anos. Nesse dia ele entrou em casa como de costume e sentou no chão e logo em seguida perguntou a mim, “ oxente! Tirasse o teu nome dali foi? Apontando para a obra de arte. Na mesma hora eu me lembrei do meu mestre e o que ele tinha falado. Ri de mim mesmo e aproveitei para observar com vinha sendo minha vida até aquele dia. E pra minha surpresa vi que realmente as coisas tinham mudado para melhor. Parece historia pra boi dormir né? Mas só eu sei como minha vida vem se transformando até hoje. E para melhorar mais, eu desfiz a forma de cruz, coloquei o braço vertical todo para a direita e preguei na parte vertical. E até hoje eu sempre observo as formas, me lembro que quando adolescente em Olinda, a galera toda usava sempre uma cruz pendurada no pescoço, e concordo que para lembrar Jesus nunca deveria usar uma cruz e sim um coração. Pensem sobre isso.